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Viagens são oportunidades claras de quebrar paradigmas e mudar seus conceitos e prioridades, principalmente aquelas ricas em aspectos culturais ou de maior auto-descoberta, Voltamos para casa pessoas diferentes, com uma visão reconstruída da nossa vida e de nossos próprios países. Por isso é importante ser observador e crítico, não se ater somente ao lugar comum turístico e exagerar no contato com outras pessoas. Dessa forma, ao final de sua viagem, você poderá carregar consigo experiências que farão parte, dali para a frente, de sua personalidade ao invés de carregar apenas presentes, lembranças e débitos no cartão bancário.

Abraços,
Rafa

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Edelweiss

Caros,

Passamos uma semana em um hotel no interior da Áustria, na beira do lago Grundlsee. As paisagens são de tirar o fôlego, praticamos snowboarding e esqui e pudemos vivenciar o ritmo da vida em um lugar como esse. A primeira observação é que ali, no período frio do ano, as pessoas são reféns das condições climáticas. Quaisquer planos que você faça dependem do aval do microclima e da sua tolerância ao frio. Alguns podem dizer que as chuvas, no Brasil, também desempenham esse papel restritivo, mas a neve impõe uma rotina de clausura e trabalho diário na limpeza das entradas de garagem, soleiras de portas, telhados e chaminés, que pode durar meses. Por outro lado, as pessoas já sabem conviver com esse tipo de coisa, e ao invés de ficarem inquietas ou mau-humoradas, elas se dedicam à música, à literatura e às artes. É interessante como o clima pode ter uma influência direta na expressão cultural de uma região. Portanto, minha dica nesse post é: aproveite as chuvas ou o mau tempo para ler, escrever, ou se dedicar à música ou qualquer hobby que você tenha, lembrando que você vive em um país no qual raramente se vê impedido de sair de casa.

A segunda observação que fiz foi a respeito da quantidade de pessoas idosas proporcionalmente ao resto da população. Aqui na Áustria é impossível não perceber o quanto a população idosa é numerosa, por outro lado, diferentemente do Brasil, são idosos mais ativos, que aproveitam a qualidade do transporte público para visitar parques e praças, e conversar alegremente entre si. Aproveito também para elogiar o transporte público e ressaltar que, pelo menos aqui no interior da Austria, os estudantes não pagam pelo transporte, o que é uma decisão lógica e justa da administração pública.
Abraço,
Rafa

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Veneza é uma cidade que não deve estar de fora de seu roteiro de viagem. No entanto, gostaríamos de deixar aqui algumas impressões de nossa passagem pela cidade que nos fez refletir sobre a Veneza quotidiana e a Veneza mascarada que nos pareceu, infelizmente, a predominante nos dias de hoje. Quando visito uma cidade, nem sempre são os maiores pontos turísticos aqueles que me atraem. Existiam tantas belas minuciosidades e detalhes escondidos nas diversas ruas estreitas e pontes da cidade que me pareciam passarem desapercebidos pelo olhar da maioria dos turistas. Qual seria, afinal, a Veneza vista por aquela imensa massa falante de turistas em grupos, com mídias auto-explicativas e máquinas fotográficas que mais pareciam metralhadoras a registrarem cada poste da cidade? Comecemos pelos restaurantes. Um capuccino no balcão de um café na Piazza San Marco custa €1,80. Mas se você decidir sentar… meu conselho é de que você não sente nem que um elefante tenha quebrado suas pernas! Uma sentadinha para tomar seu capuccino com calma pode se transformar em um verdadeiro pesadelo e a conta pode chegar a €20, SÓ porque você, turista, resolveu se sentar. E a cidade assim se encontra: restaurantes caríssimos com simpáticos atendentes que falam vinte línguas, preparados para te sequestrar para dentro do restaurante e te servir um bom prato italiano feito na hora… Sim na hora, não leva nem 10 minutos para seu prato ser esquentado no microondas e servido. As ruas próximas aos principais pontos turísticos encontram-se repletas de lojas de souvenirs com gôndolas, máscaras e o famoso murano que, até em formas extraterrestres podem ser encontrados e, para quem comprar? Pra você, turista trouxa que é, que paga €40 num murano horroroso que nada tem de artístico, vendido na banca de um dos milhares de chineses que estão tomando conta do mercado turístico da cidade. Gente, dá vontade de dar um pedala nesse pessoal… wake up people!!! Veneza é muito mais, muito mais do que isso.

Caminhando pela orla da cidade eu, como sempre, faço raiva no Rafael com minha insistência em ver o que ele chama de “artesanato local”. Não posso ver, muito menos, os desenhos e pinturas das cidades que visitamos, que fico louca. Claro, haviam ali diversos artistas talentosos e, em meio a muitos deles, um me chamou a atenção pela maneira que retratava a cidade em seus desenhos. Aquilo era arte de verdade! Me mantive a uma certa distância, suficiente para não incomodar o artista e suficiente para que eu pudesse admirar seu trabalho. Observando meu falatório e admiração, esse simpático senhor de chapéu nos chamou para mais perto, dizendo que ele não tinha costume algum de morder aqueles que paravam diante de sua banca.
Assim, nos aproximamos, e tivemos a grande oportunidade de conversar com esse artista nascido e morador de Veneza que, por quase uma hora, satisfez diversas de nossas curiosidades sobre a cidade e suas peculiaridades, verdades e mitos. Sempre com alegria e senso de humor, Baldan Fabio e seu filho nos deram ainda diversas dicas de onde se pode ir para conhecer a verdadeira Veneza e onde se pode comer bem, pagando pouco e saboreando a culinária local. Assim nos despedimos (obviamente não pude deixar de adquirir uma de suas lindas obras) e, após mais um giro pelas ruas, nos encaminhamos para o restaurante chamado Rivoleta. Nesse pequeno restaurante localizado sob uma ponte, encontramos um pedacinho da verdadeira cidade. A começar pelo dono do restaurante, que permanecia no balcão ao lado da porta, sempre brincalhão e sorridente, saudando a todos que entravam e oferecendo aperitivos como vinho para aqueles que, como nós, aguardavam por uma mesa. O clima era de descontração, os clientes eram na sua maioria locais, gondoleiros, poucos turistas. Assim o restaurante era dominado pelo alto e típico falatório italiano. Coincidentemente, lá estava nosso artista Baldan, que almoça todos os dias no mesmo restaurante e, gentilmente, nos ofereceu sua mesa para os sentarmos. Os senhores que nos atendiam pouca cerimônia tinham e segundo Rafael era tão pouca a cerimônia que quem não está habituado com esse trejeito veneziano pode pensar que se tratava de falta de educação, mas não. Me senti tão à vontade, que este deve ter sido um dos melhores restaurantes no qual estivemos. Boa comida, falatório, brincadeiras e descontração.

Nossa dica para os que ainda virão à cidade: se joguem! Não se atenham apenas às grandes catedrais e museus. Conversem com os locais, conheçam sua história, penetrem nas ruas mais estreitas e menos povoadas da cidade, provem o verdadeiro sabor da culinária local… Se permitam, se percam e se encontrem nesse lugar tão mágico e sutil que é a cidade de Veneza.

Para conhecer o trabalho de Fabio Baldan:
http://www.fabiobaldan.it

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O futuro já começou

Caros,

A nossa passagem por Florença deixou um pouco a desejar, não em função da cidade ou do hotel, que eram ambos maravilhosos, mas pelas circunstâncias da nossa estadia. Pela sua beleza, escolhemos Florença para passarmos o nosso Réveillon, apesar de não termos planejado nada em especial, como uma ceia ou um jantar mais caro. Minha convicção era de que a atmosfera da cidade, um espumante e as opções de shows nas praças seriam suficientes para uma boa virada de ano. Eu estava parcialmente equivocado.

Na noite do Réveillon fomos para a praça Santa Maria Novella, onde aconteceriam os fogos e um show patrocinado pela prefeitura. Levamos conosco um espumante e pistaches. O frio era quase insuportável e o ano de 2012 insistia em demorar a chegar, prolongando nosso sofrimento. Quando eu cogitava propor que fossemos a algum outro lugar, talvez a um restaurante, pois sentados ali na praça éramos castigados pelo frio, eis que um artista de rua começa a fazer um show de manuseio de fogo, exatamente à nossa frente. Além de nos aquecer, aquilo nos distraiu até a hora da virada, na qual estouramos nosso espumante e corremos para o calor do nosso quarto de hotel. Comendo pistaches e tomando espumante percebi que aquela convicção minha a respeito dos itens suficientes para uma boa virada de ano estava errada, e que o item principal seria na verdade uma excelente companhia, com a qual tenho o prazer de compartilhar essa viagem. Portanto, minha dica nesse post é: escolha muito bem a sua companhia para a viagem, pois ela é um fator determinante na forma como irão encarar as adversidades e apreciar as sutilezas. E se for viajar sozinho, viaje acompanhado de um excelente estado de espirito, cabeça aberta e predisposição para conhecer pessoas.

As circunstâncias desfavoráveis às quais também me referi foram as datas escolhidas para a nossa viagem. Reservamos para Florença os dias 31 de dezembro e 01 e 02 de Janeiro. Enquanto os dias 31 e 01, eram feriados na Itália, o dia 02 era uma segunda-feira, portanto, encontramos museus e parques fechados em todos os três dias. Em suma, teremos que voltar em outra ocasião a Florença, pois a cidade merece esse “esforço”.
Abraço,
Rafa

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Caros,

A cidade de Roma é como uma aula de história e literatura. O problema é que o material exposto é sempre incompleto, composto por ruínas e sítios arqueológicos. Qualquer pessoa com um conhecimento não muito vasto na área irá se confundir, encher a cabeça de perguntas sem respostas e terá que tentar preencher as lacunas com muita imaginação. Pelo menos foi assim que eu me senti. Em alguns momentos eu pensava: essas ruínas são originadas do declínio do império romano, dos ataques bárbaros, ou do incêndio da cidade? Essa estátua é de qual deus grego? Algumas perguntas podem ser respondidas com algumas consultas no Google, enquanto outras ficaram sem respostas, mas no geral, fiquei com a sensação de que deveria ter feito meu dever de casa antes de visitar Roma.

As dicas que eu daria de preparação para uma viagem a Roma não são de utilidade geral, pois dependem muito da sua personalidade e da forma como você gosta de testemunhar a história mundial, mas eu me arrependo de não ter seguido essas dicas ou de não ter recebido-as antes de conhecer a cidade de Roma. Portanto, eu me aconselharia e aconselharia vocês a lerem sobre a ascensão e o declínio do Império Romano, desde a lenda de Rômulo e Remo às invasões bárbaras. Aconselho também, embora pareça controverso, a leitura da Odisséia e a Ilíada de Homero, apesar de não serem livros históricos, o imaginário da mitologia grega é muito presente em Roma, através das estátuas e do sentimento de adoração aos seus deuses. Eu também recomendaria que vocês assistissem a uma minissérie de 6 episódios chamada Borgia, que conta a história do Papa Alessandro Borgia, seus filhos ilegítimos e episódios envolvendo o Vaticano e o castelo de Sant’Angelo que poderão ser visitados de forma mais curiosa.
Abraço,
Rafa
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Caros,

Viajar à Itália na sua atual conjuntura econômica é, no mínimo, inquietante e explico o por quê. O assunto da crise é conversa recorrente. Volta e meia me vejo discutindo esse assunto com os italianos que sempre capricham nos elogios em relação ao crescimento econômico do nosso país. O primeiro pensamento é de orgulho, porém, em um segundo momento surge uma reflexão.

Orgulho pela estabilidade econômica do país em face a duas grandes crises recentes, das sub-primes e da zona do euro. Também pelo papel cada vez mais destacado na economia mundial que garante o reconhecimento do país como uma potência econômica do futuro.

No entanto, embora eu não acredite que tenha conhecimento amplo o suficiente para explicar a crise da Itália, posso comparar a economia dos dois países e refletir a esse respeito. Enquanto o Brasil cresce com base na exploração nos seus recursos naturais, sejam eles minerais, potencial agrícola ou agropecuário ou a extração petrolífera, a Itália é o retrato da saturação. A paisagem das regiões da Calábria e da Puglia é dominada por pequenas propriedades rurais. Embora existam algumas faixas preservadas de vegetação original, é fácil perceber a impossibilidade do aumento da produção rural italiana, ao contrário do Brasil, no qual o aumento das fronteiras agrícolas só pode ser visualizado a partir de satélites. Por outro lado, o valor agregado dos produtos italianos sempre foi o seu diferencial, seja a produção artesanal de queijos e vinhos, a qualidade dos temperos, massas, grãos e cogumelos, a genialidade dos seus estilistas de moda e ou a unicidade de seus condimentos, embutidos e azeites. Embora a crise da Itália esteja associada à má administração da sua dívida pública que gerou como consequência a falta de crédito a juros sustentáveis, é impossível não imaginar que o nosso país não esteja caminhando, no longo prazo, para uma saturação semelhante. Enquanto na Itália existe uma cultura de viver da terra e tirar dela seu próprio sustento, na qual pequenas propriedades garantem o bem estar de gerações de famílias, no Brasil terra é sinônimo de grandes latifúndios e a impossibilidade de concorrência do pequeno produtor rural. Enquanto na Itália os novos imóveis urbanos são construídos por cooperativas formadas pelos próprios futuros residentes, coibindo a especulação imobiliária e controlando o crescimento urbano, e seguem rígidas regras de sustentabilidade como obrigatoriedade de aquecimento solar, isolamento térmico nas paredes e nas janelas, no Brasil crescimento urbano é sinônimo de rentabilidade.

Portanto, desta vez, fica uma dica mais filosófica: garantir que o amadurecimento de um povo aconteça antes da escassez de seu país. Lembrando que a Itália completou 150 anos de sua unificação no ano de 2011, apesar de ser uma civilização madura, principalmente em função da sua história.
Abraço,
Rafa

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Jingle Bells

Caros,

O choque de culturas pode te surpreender positivamente ou negativamente, dependendo da sua propensão a compreender e apreciar outras culturas. A Calábria se encaixa nessa antítese. As belas paisagens figuradas, simultaneamente, pelo mar e pelas montanhas são o cenário de tradições pitorescas e, do meu ponto de vista, extremamente ricas. A Calábria é reconhecida pela excelente produção de salame, ou capocollo, como é chamado aqui. No período de festas, entre o natal e o 6 de janeiro, porcos em toda a Calábria, engordados durante aquele ano, são abatidos em um processo de 3 dias de reuniões familiares, regadas de muita comida e vinho, para a produção dos salames, que serão consumidos dali a 1 ano. Da pesagem, à limpeza dos intestinos, do corte ao processo de embutir a carne e temperá-la, todos participam. Orientados por uma matriarca, profunda conhecedora dos segredos da produção do salame, protagonizam um ritual único e laborioso, do qual advém, seguramente, o melhor embutido que já tive o prazer de experimentar.

Poucas pessoas tem a oportunidade de vivenciar algo tão singular e culturalmente rico, portanto, minha dica é: se lhe ocorrer a oportunidade de se chocar culturalmente, durante uma viagem, faça-o de forma ávida, sem dúvidas e preconceitos, e provavelmente irá enriquecer sua experiência de uma maneira inesquecível. Além disso, cabe citar que a tradição italiana de produzir alimentos em conserva, envelhecidos ou maturados, inclui, além dos vinhos, as azeitonas, os embutidos e os queijos. Portanto, não se limite apenas aos vinhos!

Abraço, Rafa

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